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Storytelling + Wut I Have 2 Say: Christina Aguilera - Lotus (2012)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012
"To the sky, I rise. Spread my wings and fly.
I leave the past behing, and say goodbye to the scared child inside.
I sing for freedom, and for love.
I look at my reflection, embrace the woman I've become.
The unbreakable Lotus in me, I now set free."

Christina Aguilera sempre foi uma cantora de lançar álbuns onde a essência sempre tem um sentido pessoal, mesmo que não seja compreendido pelos outros. Quando lançou seu primeiro álbum, que levava seu nome, em 1999, Aguilera estava se apresentando ao mundo e dizendo que estava vindo pra ficar. Já no segundo, "Stripped", Christina estava se despindo para o mundo mostrando um eu vulnerável, sensível e cheio de sentimentos presos dentro de si prontos para por pra fora. Enquanto isso, em "Back to Basics", o terceiro álbum, Aguilera se dividia entre o passado e o presente e se rendia cantando em R&B puro, casa musical que deu moradia a diversas de suas inspirações musicais, como Etta James. A grande questão estava no quarto álbum, "Bionic". Recentemente Christina andou falando do álbum dizendo que "Bionic" está a frente de sua época e daqui a alguns anos será apreciado de outra forma. O álbum marcou o início de sua caída, que junto a outras coisas ("Burlesque", divórcio, The Voice, etc.) ajudaram a construir seu quinto álbum, lançado dia 13/nov, mais de dois anos após o "Bionic".
"Lotus", utilizando as próprias palavras de Aguilera, é o seu "renascimento depois de tudo que aconteceu nos últimos anos", tendo a flor Lótus como o tema escolhido para dar vida ao seu novo projeto. Bonita, indestrutível e tendo como casa o pântano, a flor traz exatamente o que Christina quer mostrar ao mundo: que mesmo após tudo, ela continua firme e forte, exatamente (ou até mais) como anos atrás.
Além de representar o seu renascimento, o álbum também é uma espécie de "álbum tributo". Para aqueles que vieram acompanhando as notícias, ou já ouviram o álbum, verão que "Lotus" possui diversas músicas que nos fazem lembrar os outros álbuns. Todos os outros 4 estão aqui presentes, seja em letra, em essência, em ritmo/instrumental, ou em tudo junto. Além, é claro, das próprias faixas.
Sendo construído desde o segundo semestre do ano passado, o quinto álbum de Aguilera reúne diversos grandes produtores e compositores como Alex Da Kid (que assina a produção de 7 da 17 faixas do álbum), ShelbackMax MartinClaude Kelly e Sia, e novos como Candice Pillay.
Atualmente o álbum, que começa a escalar os charts,  já tem o lançamento oficial em andamento em versões físicas e digitais (Standart e Deluxe, tanto em Clean como Explicit), além de uma Edição Fã-Colecionador (em versão física-digital).

LOTUS INTRO
Regida em eletrônica, auto-tune e sem o sample de “Midnight City” do M83 (que estava apenas na versão demo), a intro de "Lotus" começa de forma lenta, com varias Christinas cantando ao fundo, como que num coral, e vai aumentando sua velocidade, enquanto no fundo, o que parece um grito de guerra tribal. A introdução nos mostra a essência do álbum, nos diz do que se trata, e o que podemos esperar dali para frente. E não desaponta, é harmônica e envolve como uma musica normal. Soa como um belo mantra. “Songbird, rebirth, unearth creature. Submerge from hurt, pain, broken pieces. Emergency, heartbeat increases. Rise up lotus, rise, this is the beginning”Com uma clara referencia a seu primeiro sucesso, "Reflection", no qual diz que quer se encontrar, descobrir quem é, agora ela reforça que se encontrou, que sabe quem é e gosta do que encontrou. A tranqüilidade que transparece na musica remete a uma conversa consigo, como se apenas falasse em voz alta. Mas com firmeza, com certeza do que diz. Mesmo que em seus pensamentos. É o momento do renascimento de Christina, renascimento vindo da dor, o renascimento da voz, o nervosismo do recomeço, mas a vontade de recomeçar. É só o começo, e dá a certeza de que o fim não está perto.

ARMY OF ME
Dando abertura para as faixas mais dançantes, em “Army of Me” Christina admite a dor que sentiu e que sente, que foi despedaçada, mas que supera, e que cada um desses pedaços se transforma em mais uma de si, e que a cada pedaço que se quebra, na verdade é mais um pedaço de si que lhe trará mais e mais forcas.  Desde o início dada como a “Fighter 2.0” para a nova geração de fighters (nome dado aos fãs da cantora) que estão surgindo, a faixa traz sintetizadores e um instrumental que remete muito as dance club da década de 80 enquanto Christina Aguilera invoca sua armada única de “milhares de faces” com uma batida midtempo que diz “we're gonna rise up for every time you break me” e que no final diz se divertir com tudo, "com certeza tem um gosto doce".

RED HOT KINDA LOVE
Com uma batida divertida, brincalhona e deliciosa, cheia de segundas e terceiras intenções, Christina levanta o refrão “oh baby. I'm burning up, you got that red hot kinda love” entre “laa, laa, la-la-la”, comprovando que o album não é feito apenas de musicas sobre superação, preocupações. Composta por Christina, Lucas Seacon (que ficou por conta da produção) e Olivia Waithe, a música possui samples de “The Whole World Ain’t Nothing But a Party (de Mark Radice) e  54-46 Was My Number” (de Toots and the Maytals) e traz semelhanças com "Get Mine, Get Yours", do álbum "Stripped", apesar de ter seu ar retro como sua seqüência.

MAKE THE WORLD MOVE (FEAT. CEELO GREEN)
Impossível dizer que Make the World Move não tem tudo a ver com as musicas de Cee-Lo, mas tampouco pode-se dizer que Christina não tem nada a ver com isso. Clamando por humanidade, amor e positividade, incitando a fazer o mundo girar com todo esse amor e espantar a negatividade com certa pressa, “Make the World Move” foi uma das primeiras faixas confirmadas e é produzida por Alex da Kid. Atacando em um estilo mais dance, contém influências atuais e mais retros em uma batida quebrada com trompetes ao fundo e CeeLo Green emprestando sua voz em alguns versos do refrão enquanto Christina relembra um pouco da era "Back to Basics".

YOUR BODY
Inicialmente chamada de "Love Your Body" (em sua versão Clean), a quinta faixa do álbum é o carro-chefe do novo projeto. A música foi lançada oficialmente no dia 17 de setembro, estando pronta desde o final do ano passado, e chegou a alcançar o #3 no iTunes americano. Sendo uma dance-pop construída em mid-tempo e R&B contemporâneo, regada de eletronic e traços de dubstep, foi composta por Max MartinSavan Kotecha Tiffany Amber, sendo produzida por Shellback e Martin. É uma das músicas mais agitadas do álbum, onde Aguilera brinca com o significado de "love your body" enquanto impõe sua voz em uma batida leve e divertida. De acordo com a cantora, o unico motivo que levou ela a gravar uma música como "Your Body" foi por causa da liberdade proporcionada por Max em brincar e usar mais a sua voz, o que, consequentemente, levou o não uso do autotune na edição da música.


LET THERE BE LOVE
Sendo a música já feita diretamente para as pistas, “Let There Be Love” é a sexta faixa do álbum e a segunda musica (e última) escrita e produzida por Max Martin e Shellback (que estavam trabalhando junto em "Your Body"). A faixa mais club dancing de todo o álbum é regida pelos famosos sintetizadores de Max Martin em um refrão que fala “let there be, let there be love, here in the, here in the dark” com crescentes e decrescentes tons de instrumentais.
SING FOR ME
Dita como a nova “Beautiful” para a nova geração de fighters, “Sing for Me” é a música que Christina escolheu para dedicar diretamente e unicamente para seus fãs. Composta por Aguilera, Aeon “Step” Manahan (que ficou na produção) e Ginny Blarmore, Christina mostra sua vulnerabilidade tão presente no álbum “Stripped” no que é a primeira balada do álbum “Lotus”. Sozinha no quarto, tudo o que queria era ser ouvida. Não tendo quem a ouvisse, transforma seu desabafo, suas lagrimas e sua magoa em musica, e canta para si, tendo percebido que desde que você se escute, desde que você goste de si mesmo, é ser livre. Uma canção simples, crua, como a balada que a segue, com a intenção de focar no que Christina tem de melhor: sua voz. Enquanto a música passa, a voz de Christina soa como uma batalha contra sua garganta se espalhando pelo ar e ganhando vida. ‘Cause when I open my mouth, my whole heart comes out. Every tear I wanna cry is satisfied”. Ao final da balada, se espera um suspiro aliviado, que não vem. Há mais pela frente. 

BLANK PAGE
Christina sabe que há dor e ressentimento na tão esperada colaboração com Sia Furler (que já escreveu outras 5 baladas para Christina para o “Bionic” e a trilha sonora de “Burlesque”). Se os fãs sentiram falta de Linda Perry (que vinha participando de composição desde o “Stripped”), Sia definitivamente preenche o buraco com a balada em piano de melodia pessoal e tocante em um refrão que diz "Draw me a smile, and save me tonight. I am a blank page waiting for you to bring me to life", uma tentativa de reconciliação para um antigo amor.

CEASE FIRE
Se em “Army of Me”, Christina invocava uma armada de uma única pessoa, em “Cease Fire”, que dá fim temporários às baladas em um instrumental mais obscuro, a cantora faz uma apologia militar ainda maior em uma faixa regida por instrumentais militares e letra convocativa e cheia de personalidade em que Christina usa para pedir que cessem fogo, abaixem as armas e parem. "Baby, cease fire, throw down your weapons. I'm in your side, so, please, cease fire".

AROUND THE WORLD
Around the World”, escrita por Aguilera, Dwayne Chin-QueeJason Gilbert (também na produção) e Ali Tamposi, é uma faixa que brinca e dificulta o que em “Your Body” foi dado com mais facilidade ao gritar que tudo o que quer é "love your body". Christina acaba colocando na letra o famoso "voulez-vous coucher avec moi, ce soir?" presente no single “Lady Marmalade” em um fundo com tambores e uma letra mais sassy de amor internacional onde “all around the world we're making love”.

CIRCLES
Se o tom totalmente brincalhão e divertido de “Red Hot Kinda Love” não tinha sido suficiente, Aguilera volta com sua criação própria em parceria com Alexander Grant e Candice Pillay. “Circles” (a unica faixa do álbum liberada em Explicit) manda uma mensagem muito clara para todos os haters e negativistas mandando todos eles irem tomar naquele lugar logo no primeiro verso. “Spin around in circles on my middle finger, won't you round and round and sit on my middle finger, motherf*cker”.

BEST OF ME
A terceira balada, “Best of Me”, traz Christina mais uma vez se recusando a se rebaixar as outros enquanto canta que não vão tirar o melhor dela em, mais uma vez, tambores no instrumental. Vulnerabilidade exala como se estiv toplada em sua voz nesta canção. Soa como se estivesse lendo seu diário com melodia e ritmo. ”So you're cold,  made of ice.  Heart of stone,  born to fight.  But I cry,  I still cry.  Are you happy,  to know I'm unhappy alone?  Take your shot,  I'm wide open”Para aqueles que trabalham no sentido de “Best of Me”, a letra da música se apresenta com uma sinceridade bruta que mostra sua evolução, pegando tudo que a derrubou, se recompondo e tomando como uma lição, de olhar para cima apesar de tudo e por causa de tudo até o fim.  Tão frágil, vulnerável e entregue como se estivesse nua, ainda chora. E se prepara para ressurgir, mesmo da queda mais forte, como antes, invicta. Defensora de si mesma. “Heartbroken and beaten. Knocked down and mistreated, I will rise undefeated. I will not let you bring me down. Now the pain is deleted, and I will never repeat it, I will rise and defeat it. I will not let you bring me down”.

JUST A FOOL (WITH BLAKE SHELTON)
Na considerada por muitos a melhor musica do álbum, mesmo sem divulgação ou garantias de que virá a ser single, Christina Aguilera e Blake Shelton (que no início do ano falava para todos que queria ouvir que ainda faria Christina cantar country e que seria ao lado dele) pisam em um território onde há dor e saudade, tentando convencer a si próprios de que é melhor do jeito que esta, em vão. Surpreendentemente, a voz pop de Christina consegue casar com a voz country grave de Blake, que sabe onde sua voz pode alcançar e onde pode apenas deixar Christina continuar sozinha. Sem medo de parecer tolos perante a situação em que se encontram, permanecem na tentativa de achar maneiras de amenizar a aflição, as feridas, ou de pelo menos não se torturar com tais lembranças, realizando que essas maneiras não existem. “I'm just a fool for holding on to something that is never ever gonna come back. I can't accept that it's lost. I should have let it go, held my tongue. Can't fight the motion, cause now everything's so wrong. I'm thrown. I’m just a fool, a fool for you”. E então, enchem seus pulmões e gritar com todo o fôlego que ainda existe a dor que sentem como se estivesse tudo errado e incompleto. Em "Best of Me" vulnerabilidade não falta e em "Just a Fool" ela transborda, inunda o estúdio e invade onde quer que o ouvinte esteja, enchendo-o tanto quanto. “I had my heart set on you, but nothing else hurts like you do. Who know that love was so cruel? And I waited and waited so long for someone who never comes home. It's my fault to think you'll be true. I'm just a fool”.
É com essa crueza, sinceridade exacerbada, vulnerabilidade e poder de superação que Christina Aguilera nos apresenta seu renascimento depois de uma fase negra em sua carreira e em sua vida em um contexto geral. Lotus nos dá uma visão diretamente de seus olhos, por meio de vocais poderosíssimos como poucos conseguem alcançar, e por baladas tão frágeis quanto belas. Mas ao invés de parar onde está, Aguilera segue por outro caminho. Levanta, toma tudo o que lhe foi atirado, todas as pedras, tomates e escárnios e os usa para tecer a celebração de não só um novo recomeço, como a celebração de tudo o que passou ate hoje, o que claramente não inclui apenas dias bons. Celebra a recente descoberta de quem realmente é e o que isso significa. Celebra o amor de todas as maneiras: no seu estado puro, no sexo, na dor. Abraça aquilo que é, o que sempre foi e o que moldou com o tempo e com as situações. Defende-se de uma guerra inútil e desnecessária, com a nobreza de implorar para que a mesma acabe. "Lotus" traz tudo isso, marcando o renascimento. A flor inquebrável agora está mais forte e mais determinada do que jamais esteve, pronta para o que está por vir e mostrar que tudo no passado só a fortaleceu.

“And now the Lotus rises
We are never dying
Forever flying
And always surviving”



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Storytelling: Regina Spektor - What We Saw From the Cheap Seats (2012)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012
NOTA: 8.0/10.0
SIRE RECORDS
"I must've left a thousand times. But every day begins the same.
Cause there's a small town in my mind".
(Eu devo ter saído mil vezes, mas todos os dias começam igual.
Porque tenho uma pequena cidade em mente.)

Depois do sucesso questionável por alguns de Far, seu ultimo álbum inédito, a cantora e compositora russa naturalizada americana Regina Spektor lançou em 29 de maio o seu novo álbum, o What We Saw From the Cheap Seats, produzido por Mike Elizondo, responsável por trabalhos (produzindo e escrevendo) de Fiona AppleAlanis Morissette (que tem um estilo levemente parecido com o de Regina). Como de costume, voz e piano se confundem em uma só melodia, ainda que de forma menos enfatizada que nos primeiros álbuns de sua carreira, mas isso ainda vai ser discutido.
Difícil mesmo é definir um conceito para englobar todas as músicas incluídas no álbum conseguindo-se observar uma multiplicidade de estilos, humores e sons; e pondo na equação que essas músicas foram todas escritas em momentos diferentes da sua carreira. A cantora já afirmou que as músicas do novo álbum foram escritas ao longo dos últimos 10 anos. Open, por exemplo, foi escrita enquanto a cantora ainda morava na casa dos seus pais, em 2003 ou 2004. All the Rowboats, um ano depois. Dito isso, este álbum é muito mais considerado uma coletânea, ao invés de um álbum de inéditas. Então volta a pergunta inicial: como englobar essas músicas tão “diferentemente escritas” num todo? A resposta esteve na pergunta o tempo inteiro.
Talvez exatamente por esses motivos. Uma história, não necessariamente linear, nem necessariamente sobre ela, nos é contada ao longo do disco, nos fazendo perceber as mudanças que aconteceram e que muitas ainda estão por vir. De mudar o estilo, passando por mudar de cidade, terminar um relacionamento até amadurecer. Isso fica visível com o fato de cada música ser escrita em um período diferente de sua vida. Músicas escritas há 10 anos, hoje em dia muito provavelmente não fariam tanto sentido para ela mesma quanto faziam naquela época, assim como mudou sua maturidade, sua forma de ver o mundo, suas concepções e maneiras de ver as coisas. Aliás, a maneira com que outros recebem essas mudanças também é abordada em What We Saw..., tal como a confusão entre passar por essa mudança ou não. A mudança mais duramente criticada pela mídia e por seu público foi uma mudança de estilo. Entretanto, não foi bem uma mudança. Spektor diz sempre que um estilo só é uma limitação autoimposta, e que ela não é assim. E deixa claro com constantes mudanças de ritmos, melodias e voz durante uma só música, que dirá em um álbum inteiro. O álbum é refinado, com melodias contrastantes, e considerado se não seu melhor, ao menos seu melhor esforço para chegar lá. Tem potencial para tanto, deve-se acrescentar. Seu álbum mais instigante, com certeza.

Parece ser essa mistura, do que já foi, do que é hoje e do que pode ser daqui a apenas segundos, que a intriga. Certamente, me intriga. Não é porque as coisas mudaram que elas não aconteceram. Fazem parte de você, de quem é, de como se transformou no que é hoje e de como chegou até aqui. E é desta maneira que o álbum se inicia, em uma Small Town Moon saudosista, onde fala de uma insatisfação, uma constante vontade de mais, mais do que o limitado que lhe é oferecido, mas ao mesmo tempo de não querer magoar quem espera aquele limitado dela. É o terceiro single do álbum, não tendo vídeo ainda. E também de como não deve se preocupar tanto com essas limitações impostas pelos outros, ou por si mesmo. “Cause we're going to get real old real soon, today we're younger than we're ever going to be. Stop, what's the hurry? Come on baby, don't you worry. Everybody not so nice”, ela canta despreocupa, como se estivesse cantando sobre algo comum, o que não deixa de ser. Quase como um aviso de que isso acontece todo o tempo e foge completamente a nossa percepção.

Seguindo diretamente para Oh, Marcello!, em que ela arrisca um sotaque italiano (até esse sotaque falso foi alvo de críticas duras pelos fãs mal humorados, até ele), permanece em seu estilo, usando de certa ironia e do refrão de Don’t Le Me Be Misunderstood, gravada primeiramente por Nina Simone, mas interpretado magistralmente por ela, com uma graça, uma doçura impressionantes, e com algo de sons vocais que fixam como chiclete, impedindo que ouça sem repetir esses sons junto dela. Don’t Leave Me (Ne Me Quitte Pas), segundo single, é um tópico delicado. Música que já esteve no álbum Songs, está um pouco mais suntuosa, claro, mais moldada e aprumada para o que pareceu uma “hora certa de lançar a música, e do jeito que ela merecia”, como a própria disse em recente entrevista. Com um refrão tão delicioso e divertido, que fica impraticável ouví-lo sem sorrir. E tem um clipe tão divertido ou mais que a própria música, com cenas em que é impossível não rir e não adorá-la, apesar de tão simples. Atenção na cena do pão de óculos e boina, e para a cena da fogueira em plena sala de estar. E sempre, atenção na beleza e graça de Regina.

Uma melodia completamente ao piano, mais delicada, Firewood é algo de esperançosa, e passa algo para não desistirmos, por mais que as coisas não deem certo todo o tempo. Elas nunca dão certo todo o tempo de qualquer maneira. The piano is not firewood yet, but the cold does get cold. So it soon might be that. I'll take it apart, call up my friends, and we'll warm up our hands by the fire”. Talvez dê vontade de desistir, de voltar atrás, de correr para o passado, mas não se consegue correr pra lá. E mesmo que desse, não é aconselhável. Vai doer, vai doer mais, e depois mais ainda. Cada vez mais. Mas que sentar e se lamentar todo o sempre não é e nunca foi solução para nada. E que se doer quando você tentar de novo, pelo menos doerá com você tentando, e não com você sentado, se lamentando. Everyone knows it's going to hurt, but at least we'll get hurt trying (…) Love what you have and you'll have more love, you're not dying. Everyone knows you're going to love, though there's still no cure for crying”. Uma música que não deveria ser vista como triste, mas com esperança, tendo em mente que a música atinge como um tapa de luvas de pelica, de tão realista. E uma das melhores do álbum, absolutamente.

Patron Saint, uma das pérolas do álbum, tem letra provocativa e indica uma autodestruição, tal como destruição de todas essas pessoas que a cercam, e avisa, para desistir dela, pois a destruição é certa, destruição essa que é aprender que o amor verdadeiro existe. Her patron saint, broken and lame, and absolutely insane for learning that true love exists. So darling, let go of her hand. You'll be to blame for playing this game and learning that true love exists”.

Em How, particularmente preferida do álbum, é introduzida com um violino. É lenta, calma, tranquila e de uma perda de um grande amor, que pode ter sido pelo fim de um relacionamento ou pela morte dele. Suave, tem uma bateria de leve, e ela consegue altas notas no refrão, sem muito som para abafar essas notas. How can I forget your love? How can I never see you again? There is a time and place for one more sweet embrace. (…) I guess you know by now that we will meet again somehow. (…) Time can come and take away the pain, but I just want my memories to remain. To hear your voice to see your face. There's not one moment I'd erase”. Uma das músicas mais bonitas que ouço em tempos, com absoluta certeza.

Contrastando completamente com o resto do álbum e principalmente com a anterior How, All The Rowboats tem uma introdução eletrônica. Foi o primeiro single do álbum, e parece falar sobre pinturas sendo desperdiçadas em um museu, solitárias e presas naquele momento em que foram gravadas, e da eternização delas. Música boa, com letra, melodia e clipe sensacionais. “First there's lights out, then there's lock up, masterpieces serving maximum sentences. It's their own fault for being timeless, there's a price you pay and a consequence. All the galleries, the museums. Here's your ticket, welcome to the tombs. (…)They will hang there in their gold frames for forever, forever and a day. All the rowboats in the oil paintings, they keep trying to row away, row away”.

Criticando a corrupção política e sobre nossas reações a mesma, Regina canta Ballad of a Politician, que trás uma sensação de desconhecido, de misterioso, de algo que se mantém escondido de nós, mas isso é costumeiro em suas canções, e de mais a mais, se encaixa perfeitamente no contexto de algo que é feito as escondidas (a corrupção). Shake your ass out on that street, you’re gonna make us scream someday, you’re gonna make us weak”. Open parece ser o começo do fim do álbum, em partes suave como em Firewood e How, em outras fazendo um barulho que soa como um ‘Whoa’ assustado, abafado, um grito abafado.

O álbum é finalizado com Jessica, que ao invés de um piano padrão, vem acústica, com um violão dando sobriedade a canção. Regina começa o álbum falando de amadurecer, de crescer, de sair da zona de conforto, e termina cantando literalmente sobre isso com uma leveza inacreditável e de certa forma reflexiva, embargada, em frases como “Jessica, wake up. It's February again, we must get older, so wake up”. Curta e simples, finda o álbum da forma que começou, com chave de ouro, deixando para trás seu rastro doce e arrancando sorrisos por quem passa por aquele caminho.

Nunca disposta a permanecer na área onde esteve há pouco tempo, e que estava dando certo, e sempre aberta a mudanças, mantendo-nos sem saber ao certo o que esperar, e de certa forma desapontando uns e outros que não entendem o porquê dela não continuar naquele ritmo de 10 anos atrás. Contrário a muitos que criticaram, acompanho a carreira de Regina crescer, mudar de um álbum para o outro, sem permanecer em mais de um com a mesma fórmula. Uma previsível imprevisão, mas sempre incorporando elementos novos adquiridos ao longo do caminho. Regina nos canta em algumas músicas sobre coisas que nos parecem óbvias, mas quando cantadas por ela, por essa voz suave que mais parece uma das melodias, tem algo de esclarecedor, como uma epifania, como se nunca houvéssemos pensado sobre aquilo. E sua inocência clara, que nos faz perguntarmo-nos, se ela ao menos sabe a grandiosidade das palavras que saem de sua boca e dedos. 

Não sou nem um pouco confessional”, ela disse em outra entrevista. Por mais que Regina pareça estar falando de si em diversas músicas, elas podem não ter muito ou nada a ver com ela. Diz também que vê escritores de ficção (como conta que se assemelha mais a eles) tão intensamente emocionados e ligados, deixando um pouco de si com o que escrevem quanto autores que deixam nas páginas estórias que contam experiências próprias.
De acordo com a própria, é como uma traição a musica tentar explica-la, ou transformá-la em palavras que justificam o porquê dela ter sido escrita, já que o ponto da musica ser criada é ela ser abstrata, interativa, experimentada, e o quanto mais que você tenta explicá-la, você lida com algo extremamente frágil. Você a toma como ela é, e deixa os outros terem suas próprias experiências com ela. E quando você consegue chegar a escrever uma, se sente realmente sortudo, pois é uma das coisas que as pessoas não conseguem explicar, entender, a criação de uma música. E que para ela, “tentar escrever uma música” a deixa quase enojada, pois seria como manipular a si mesmo ou a música. Que se faz verdadeira arte se você se sente inspirado.
Regina Spektor mantém sua identidade, ainda que esteja em permanente mudança. É como se nos fizesse querer ouvir sua voz pelo menos por um momento em cada dia, é convidativa, mesmo quando irônica, sarcástica ou triste. Talvez para nos lembrar constantemente que ainda podemos ser tocados, que ainda podemos sentir. E que podemos arriscar, tomarmos aquele passo que caímos em dúvida entre tomar ou não. É o que faz, a cada canção que escreve, a cada álbum que lança, a cada ideia que tem, com seu experimentalismo tão gracioso.

I am in a room I've built myself.
Four stray walls, one floor, one ceiling.
And day after day I wake up feeling… Potentially lovely, perpetually human,  suspended and open.
Open up your eyes and then...


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